A primeira vez que o vi pensei que era coisa de cenário de novelas, coisa que se vê naquelas casas de escadaria central, onde as pessoas que invariavelmente se tratam por você cirandam de copo de uísque na mão à espera dos aperitivos na bandeja do mordomo.
Eu vi-o, e ele era branquinho, enorme.
Senti-me homenzinho quando cheguei ao pé da senhora e perguntei: “Quanto é que custa aquele sofá branco, com um avançado?” Era caro, tão caro como eu esperava que fosse.
Mas eu sentia-me homenzinho na atitude – os miúdos não andam em lojas de móveis a perguntar preços – e no bolso, porque tinha acabado de receber algum dinheiro de um projecto novo e estava decidido a montar a minha primeira casa, sozinho.
Levei o sofá, uma mesa de jantar, quatro cadeiras, duas mesas de escritório, uma estante de livros, um módulo de gavetas de escritório, uma cama de casal, duas mesinhas de cabeceira, um candeeiro de pé, dois candeeiro de tecto e dois candeeiros de parede. Foi tudo de uma só vez, tudo na mesma noite, tudo escolhido naquela hora.
Mas eu só tinha olhos para ele.
No dia em que chegou, vinha partido em três, e embrulhado naquele papel transparente com que enrolamos as mobílias no dia das mudanças. Primeiro entrou o avançado, enorme, com pés de madeira maciça, mas ainda sem as almofadas, que vieram à parte. Depois chegou o segundo módulo, e por fim o terceiro. Os senhores montaram tudo e, em minutos, lá estava ele, juntinho à janela, em frente à televisão. Estava feliz, com aquela luz do dia que entrava pelas enormes janelas e o iluminava.
Dois dias depois chamei os amigos, e todos vieram vê-lo. Trouxeram pipocas, eu fiz bifes, abrimos batatas de pacote e vimos o "Exorcista" – eu revi, pela 28.ª vez. Lembro-me de abrir as portas de saloon que separavam a cozinha da sala (feias, feias) e vê-los lá, a Ana, a Rita, o Miguel, a Lisete, mergulhados no silêncio, gelados pelo medo, apertadinhos uns contra os outros, tapados com uma mantinha que não largava pêlo, para não sujar o menino dos meus olhos, que se estava a portar tão bem.
Quando deixei aquela casa, a minha primeira casa, só minha, a casa branquinha com uma vista magnífica, fiz questão de que a última coisa a ser transportada fosse o meu sofá branco. Lembro-me de ter estado sentado no balcão da cozinha, sozinho, enquanto a agitação da mudança decorria nas outras divisões. Em minutos, passaram-me pelos olhos os melhores momentos que vivi ali. Voltei à sala, agora completamente vazia, e só lá estava ele, sempre iluminado pelo sol. Sentei-me e disse-lhe que íamos para melhor. E lá fomos à nossa vida.
A casa nova gostou dele e até lhe ofereceu umas almofadas de côr, que o deixavam mais alegre - coisas que um homem não se lembra. Depois veio o tapete a seus pés – da mesma cor que as almofadas – e o candeeiro de pé em forma de arco que eu tinha no escritório passou a pender por cima do meu sofá branco, que ganhou outra alma. Aquilo fazia tudo sentido, de facto, como é que nunca me tinha lembrado?
Não foi por isso que fomos felizes. Bastaram uns meses para que chegasse a noite em que me deitei nele, de lado, em frente à televisão, que me mostrava uma vitória do Benfica, na altura coisa mais rara. As bolas entravam e eu não me mexia, não pestanejava, não reagia. Foi nesse instante, ali, deitado, que decidi que só podia quebrar em vez de torcer, desistir para voltar a existir, morrer para voltar à vida.
Uns meses depois lá estava ele, ainda branco, mas cada vez menos, noutra carrinha de mudanças, embalado para uma nova vida. O novo espaço não era feito para ele e quando o pousei no seu destino final senti-o infeliz. O avançado ficava do lado errado e não podia ser mudado. As almofadas encardidas estavam desconfortáveis. As paredes brancas tiravam-lhe brilho e deixavam-no entalado, sem ar. O pior veio depois. O branco afinal não fazia sentido, e chegou a decisão de lhe oferecer uma nova roupa, agora preta, impermeável, moderna. Ele habituou-se.
Foi já vestido de negro que amparou a primeira muda de uma fralda, o primeiro biberão. Foi na sua terceira vida que viu guerras, pazes, guerras. Voltou a ver amores e viu desamores. E foi numa hora de desamores que me ouviu dizer-lhe que íamos mudar de vida, mas nem precisava de lhe dizer porque eram demasiadas as noites em que me deitava nele e em que as palavras estavam a mais, porque ele sabia tudo, nem que fosse pelas lágrimas com que o molhava.
Uma vez mais partimos, em camionetas cheias de livros, com caixas recheados de filmes, sacos a transbordar de inutilidades e um carregamento de esperança de que agora é que é.
Há dias deitei-me no meu sofá, preto, continua preto, já velhinho, e lembrei-me que ele é o meu maior confidente, que ele assistiu aos momentos mais marcantes da minha vida que sempre que alguma coisa de importante acontece estamos lá os dois. E estaremos.
Há 28 minutos


















