sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

O meu sofá

A primeira vez que o vi pensei que era coisa de cenário de novelas, coisa que se vê naquelas casas de escadaria central, onde as pessoas que invariavelmente se tratam por você cirandam de copo de uísque na mão à espera dos aperitivos na bandeja do mordomo.

Eu vi-o, e ele era branquinho, enorme.

Senti-me homenzinho quando cheguei ao pé da senhora e perguntei: “Quanto é que custa aquele sofá branco, com um avançado?” Era caro, tão caro como eu esperava que fosse.
Mas eu sentia-me homenzinho na atitude – os miúdos não andam em lojas de móveis a perguntar preços – e no bolso, porque tinha acabado de receber algum dinheiro de um projecto novo e estava decidido a montar a minha primeira casa, sozinho.

Levei o sofá, uma mesa de jantar, quatro cadeiras, duas mesas de escritório, uma estante de livros, um módulo de gavetas de escritório, uma cama de casal, duas mesinhas de cabeceira, um candeeiro de pé, dois candeeiro de tecto e dois candeeiros de parede. Foi tudo de uma só vez, tudo na mesma noite, tudo escolhido naquela hora.

Mas eu só tinha olhos para ele.

No dia em que chegou, vinha partido em três, e embrulhado naquele papel transparente com que enrolamos as mobílias no dia das mudanças. Primeiro entrou o avançado, enorme, com pés de madeira maciça, mas ainda sem as almofadas, que vieram à parte. Depois chegou o segundo módulo, e por fim o terceiro. Os senhores montaram tudo e, em minutos, lá estava ele, juntinho à janela, em frente à televisão. Estava feliz, com aquela luz do dia que entrava pelas enormes janelas e o iluminava.

Dois dias depois chamei os amigos, e todos vieram vê-lo. Trouxeram pipocas, eu fiz bifes, abrimos batatas de pacote e vimos o "Exorcista" – eu revi, pela 28.ª vez. Lembro-me de abrir as portas de saloon que separavam a cozinha da sala (feias, feias) e vê-los lá, a Ana, a Rita, o Miguel, a Lisete, mergulhados no silêncio, gelados pelo medo, apertadinhos uns contra os outros, tapados com uma mantinha que não largava pêlo, para não sujar o menino dos meus olhos, que se estava a portar tão bem.

Quando deixei aquela casa, a minha primeira casa, só minha, a casa branquinha com uma vista magnífica, fiz questão de que a última coisa a ser transportada fosse o meu sofá branco. Lembro-me de ter estado sentado no balcão da cozinha, sozinho, enquanto a agitação da mudança decorria nas outras divisões. Em minutos, passaram-me pelos olhos os melhores momentos que vivi ali. Voltei à sala, agora completamente vazia, e só lá estava ele, sempre iluminado pelo sol. Sentei-me e disse-lhe que íamos para melhor. E lá fomos à nossa vida.

A casa nova gostou dele e até lhe ofereceu umas almofadas de côr, que o deixavam mais alegre - coisas que um homem não se lembra. Depois veio o tapete a seus pés – da mesma cor que as almofadas – e o candeeiro de pé em forma de arco que eu tinha no escritório passou a pender por cima do meu sofá branco, que ganhou outra alma. Aquilo fazia tudo sentido, de facto, como é que nunca me tinha lembrado?

Não foi por isso que fomos felizes. Bastaram uns meses para que chegasse a noite em que me deitei nele, de lado, em frente à televisão, que me mostrava uma vitória do Benfica, na altura coisa mais rara. As bolas entravam e eu não me mexia, não pestanejava, não reagia. Foi nesse instante, ali, deitado, que decidi que só podia quebrar em vez de torcer, desistir para voltar a existir, morrer para voltar à vida.

Uns meses depois lá estava ele, ainda branco, mas cada vez menos, noutra carrinha de mudanças, embalado para uma nova vida. O novo espaço não era feito para ele e quando o pousei no seu destino final senti-o infeliz. O avançado ficava do lado errado e não podia ser mudado. As almofadas encardidas estavam desconfortáveis. As paredes brancas tiravam-lhe brilho e deixavam-no entalado, sem ar. O pior veio depois. O branco afinal não fazia sentido, e chegou a decisão de lhe oferecer uma nova roupa, agora preta, impermeável, moderna. Ele habituou-se.

Foi já vestido de negro que amparou a primeira muda de uma fralda, o primeiro biberão. Foi na sua terceira vida que viu guerras, pazes, guerras. Voltou a ver amores e viu desamores. E foi numa hora de desamores que me ouviu dizer-lhe que íamos mudar de vida, mas nem precisava de lhe dizer porque eram demasiadas as noites em que me deitava nele e em que as palavras estavam a mais, porque ele sabia tudo, nem que fosse pelas lágrimas com que o molhava.

Uma vez mais partimos, em camionetas cheias de livros, com caixas recheados de filmes, sacos a transbordar de inutilidades e um carregamento de esperança de que agora é que é.

Há dias deitei-me no meu sofá, preto, continua preto, já velhinho, e lembrei-me que ele é o meu maior confidente, que ele assistiu aos momentos mais marcantes da minha vida que sempre que alguma coisa de importante acontece estamos lá os dois. E estaremos.

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

É a monotonia, é a rotina

A rotina instalou-se, é assim.
A rotina não se instala. A rotina deixa-se instalar.

A monotonia só chega onde a deixam chegar. O que me assusta é perceber que mais dia menos dia todos baixam os braços, todos desistem, todos se rendem a um conforto que só o é até se tornar desconfortável.

Não há relações longas que aguentem anos e anos a fio no auge, sempre lá em cima, com surpresas diárias, actos de paixão a toda a hora, sexo escaldante a todo o momento. Nem sei bem se, nos dias de hoje, teríamos pedalada para uma coisa assim, principalmente nós, os trintões, com trabalho no escritório, trabalho em casa, filhos e uma casa para cuidar.

O importante é perceber onde está a linha da monotonia e não deixar as coisas irem por aí abaixo. É ir mantendo a relação num nível estável e, sempre que possível, ou de vez em quando, vá, procurar um pico de adrenalina, descobrir uma novidade, inventar um desafio novo, resgatar uma surpresa. Mas infelizmente isso acontece muito pouco. Lá está, porque a rotina se instalou, porque a monotonia chegou, quando o que não queremos perceber é que a culpa é nossa, os rotineiros somos nós, os monótonos somos nós.

Há dias vi o “Nas nuvens”, candidato a vários óscares, entre eles o de melhor filme. Há uma personagem que exemplifica tudo isto. Uma quarentona gostosa que quando se encontra com o homem que uma noite a seduz num bar faz tudo e mais alguma coisa. É uma tigreza na cama, a rainha da sensualidade, tudo aquilo que um homem pode desejar, ao ponto de o homem abdicar da sua vida para correr para os braços dela. Mas quando a procura encontra-a numa casa de família, vestida como a tradicional mamã, de jeans e camisa sem sal, penteado vulgar. E lá está ela, aquela mulherzinha, no conforto dos braços do marido, com quem deve fazer amor de mês a mês, na posição de missionário, luz apagada, e a despachar.

Ainda deve haver por aí homens que gostam de ter uma lady em casa – a mãe de família – e procuram as outras, as amantes, as putas, as gajas, para tudo o resto. À namorada, à mulher, dá-se o básico, o essencial, cumpre-se com a obrigação. Para as outras há tudo, é a puta da loucura na cama. Se é verdade que ainda há homens assim, também é verdade que eu não os compreendo. Como não compreendo as mulheres que quando saltam a cerca oferecem-se como nunca, fazem tudo e mais alguma coisa, e depois, em casa, são umas púdicas de primeira.

É a monotonia que se instala, dizem eles.
É a rotina que se instala, dizem elas.

Vocês são uns fracos, digo eu.

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Marta&Me

Marta Leite Castro resolveu insultar uma jornalista com quem trabalho há vários anos, e que sei ser competente no que faz, experiente a lidar com estes famosos da treta, e, sobretudo, honesta.
Resolvi responder-lhe nas páginas do jornal. E agora partilho convosco o que escrevi, para que chegue ao máximo de gente possível o quão baixa é esta senhora.

"Marta Leite Castro enviou ontem para várias redacções um comunicado reagindo à notícia de ontem do nosso jornal, que citava uma declaração da apresentadora do “Só Visto”, que disse no programa de Jô Soares, no Brasil, que nascer em Portugal foi “um erro crasso”. Não publicamos este comunicado por uma razão: nele, a apresentadora explica o inexplicável, justifica o que não tem justificação, diz que não disse o que pode ser visto e ouvido com uma simples visita ao Youtube. Pior: afirma que o o nosso jornal descontextualizou as suas declarações, que afinal eram apenas “jocosas” e não tinham “intenção” de “desconsiderar” o país onde nasceu.


Marta Leite Castro foi anteontem contactada pela nossa jornalista, que lhe ligou, precisamente, para que Marta pudesse explicar a sua versão dos factos, dando-lhe oportunidade de se defender, de se justificar, de enquadrar o que disse da forma que melhor entendesse. A nossa jornalista cumpriu com a sua função, ou seja, tentou ouvir a pessoa envolvida na história. Marta Leite Castro preferiu não fazer essa contextualização e, antes, tratou de insultar gratuitamente a editora do nosso jornal, dizendo que a repórter vive “a coser botões”, que “não é ninguém”, que “não vale nada” e que “nem carteira profissional deve ter”. Mais grave: depois disto, passou à ameaça. “Publique isso que vai ver o que lhe acontece. Eu já fiz a vida negra a muitos jornalistas. Eu guardei a sua mensagem, vai ver o que lhe vai acontecer”. Marta acusa ainda a nossa jornalista de não ganhar sequer “mil euros”.

Quem lê estas palavras de Marta Leite Castro percebe que não há grande necessidade de dizer mais nada. Estas frases revelam a pobreza de espírito, a pequenez, a arrogância e a imbecilidade desta menina que se julga alguém na vida e que não passa de uma apresentadora de terceira categoria, que só é notícia nas revistas quando aparece com um novo namorado (ou seja, está sempre a aparecer). Uma pessoa que julga outra por “não ganhar nem mil euros” não me merece o mínimo respeito ou consideração, antes, suscita-me nojo.

No comunicado que enviou às redacções, Marta Leite Castro ameaça agir judicialmente contra a jornalista que se limitou a fazer o seu trabalho, e que o fez de forma irrepreensível. Desafio aqui a apresentadora a esquecer esse processo, que não vai dar em nada, e a levar-me a mim a tribunal, que, depois deste artigo de opinião, deixo-lhe muito mais matéria por onde pegar. Será um prazer encontrá-la em tribunal, cara Marta".

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

O Mané

Trazia duas saquetas de cromos Panini já abertas e duas ainda por abrir, acabadinhas de comprar no quiosque do senhor Artur, que ficava mesmo em frente ao café onde vivia o cão preto que me iria atacar três vezes no ano seguinte. Estava mais preocupado em saber se ia ficar com o Chalana repetido do que em ver a criatura que me queriam mostrar, um carequinha com uma cabeça que parecia um melão e que toda a gente dizia ser "muito lindo" só para parecer bem. Lá olhei para ele - dormia, chuchava e fazia uns barulhos esquisitos - mas os meus sete anos não me deixavam sentir grande coisa. Era um bebé como os outros, mas mais cabeçudo.

Um ano depois, na mesma sala em que rezei de joelhos para que Portugal eliminasse a França no Euro 84, segurei-lhe nos bracitos flácidos e fi-lo andar, devagarinho, pé-ante-pé, até à mãe que o esperava do outro lado, com aquele sorriso pateta dos pais orgulhosos dos feitos incríveis dos filhos, como dar um passo.

Foi já na casa em que passámos a dividir um quarto, e em que eu me divertia a roubar-lhe os Sugos que ele recebia das visitas, que o conheci melhor. Ensinei-o a encaixar peças do Lego, mostrei-lhe o que era um Playmobil e fintei-o de todas as formas e feitios com a pequena bola de ténis com que costumávamos brincar no corredor.

Um dia, sem que nenhum de nós percebesse bem porquê, foi-se o quarto, foram-se os Legos, os Playmobil e a bola de ténis. Foram-se as brincadeiras, as gargalhadas, os gamanços de Sugos. Quando dei por mim não tinha nada. Nem os coleguinhas da escola, nem os brinquedos de sempre e nem sequer aquela criatura, que já era o meu melhor amigo, apesar de ter 3 anos.

Nunca mais vi o bebé com que brincava. Encontrei anos depois um menino tímido, perdido entre gente grande que não conhecia. Não se lembrava de Legos, dos Playmobil, dos Sugos, nem sequer de mim.

A vida um dia separou-nos, a vida um dia trouxe-nos de volta um ao outro.
E se hoje sou mais feliz devo-o a ti.

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

A neve

Durante a minha curta ausência para umas estimulantes mini-férias de neve fui insultado num certo e determinado blogue, que me acusava de ter quebrado um compromisso assumido previamente – o de não gastar dinheiro em viagens este ano, visto que é um ano de casório.

Pois bem, cabe-me agora o direito de resposta.

A viagem à Sierra Nevada ficou-me em cerca de 500 euros, com apartamento, forfait, refeições e aluguer de material. Repito: 500 euros. É verdade que eu acordei com a minha esposa que este ano não iria haver extravagâncias, como viagens a Nova Iorque, a Tóquio ou a Buenos Aires, coisas que dificilmente ficam em menos de 2000 mil euros por pessoa, porque eu já sei o que a casa gasta. Agora uma viagem à Sierra Nevada, que é quase no Algarve, e que custa 500 euros, não é, sequer, uma viagem, é um vou-ali-e-já-venho, um estou-ali-mas-estou-aqui.

Se o problema é o dinheiro gasto, então, vamos lá fazer as contas aos gastos de certa e determinada pessoa nestes últimos dois meses. Só em “vestidinhos”, “sapatinhos”, “blusinhas”, “casaquinhos”, “malinhas”, “tralhinhas”, telemóvel novo, massagens e outras coisas que tal, cheira-me, que chegamos aos tais 500 euros da neve. Diria mesmo que as frases que mais tenho ouvido da boca de certa e determinada pessoa nestes últimos tempos são: “Hoje desgracei-me” na loja tal, “Hoje comprei dois sapatinhos, mas era um saldo muito bom, tinha de ser”, “Tenho uma coisa para te dizer: comprei mais dois vestidinhos”. E agora perguntam vocês: “Espero que lhe tenhas atirado à cara o que combinaram, que não iam gastar dinheiro”. Pois, não atirei. Mais, a minha resposta foi sempre a mesma: “Eu acho que deves gastar o dinheiro no que te faz feliz”. Se são sapatos, que sejam, se são vestidos, que sejam, se são séries de televisão, que sejam.

A mim faz-me feliz ir uma semana para a neve. Pode ser?

Embrulha.

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

À pancada

Parece que voltei aos tempos de escola. Mentira. Nos tempos de escola eu não era assim. Mas o que é que se passou, afinal? Passou-se que andei à pêra. Agora perguntam vocês:

- Apanhaste uma bebedeira, meteste-te com a gaja errada e levaste nos cornos?
- Não.
- Mas foi na noite?
- Não.
- Ah, então foi no trânsito.
- Também não.
- Com um ex da tua namorada?
- Nopes.
- Com um gajo que te tentou assaltar?
- Nein.
- Ah, então foi um gajo que se meteu com a tua namorada.
- Frio, muito frio.

Bom. Podíamos ficar aqui o dia todo que jamais lá chegariam. Andei à pancada segunda-feira à tarde. E onde? Onde? Onde? Na hemeroteca de Lisboa, que para quem não sabe é uma espécie de biblioteca.

Já tive de contar a história 20 vezes, mas para não te de a contar mais 30, aqui fica um resumo dos acontecimentos.

Estava eu sentadinho a ler jornais antigos numa daquelas mesas compridas, antigas, onde estava apenas um senhor, na outra ponta, quando percebo que o meu telémóvel, que estava no silêncio, começa a piscar.
Levantei-me, fui para perto da janela, afastei-me uns 10 metros da pessoa mais próxima e atendi com um quase imperceptível "Estou?".
Foi neste segundo que o senhor que estava na minha mesa, dos seus 45 anos, 1,85m, magro, se levantou e disse em tom agressivo:
- "O senhor não sabe que é proibido falar ao telemóvel aqui?".
Tinha razão. Pedi licença à pessoa com quem estava a falar e fui lá para fora conversar.
Quando voltei, nada me disse o senhor, nada lhe disse eu.
Uns 20 minutos depois, perdido nas leituras, ousei bater com as unhas na mesa, naquele tique normal de quem está entediado, longe do mundo. Bati duas vezes, de forma inaudível, quase, um toc! toc! em jeito de tique.
O senhor levantou-se da cadeira e perguntou, aos berros:
- "O senhor está numa tasca? Não se sabe comportar numa biblioteca? É algum parvo?"
Lá lhe disse que não tinha feito rigorosamente nada, que não percebia a indignação dele, ao que ele insistiu:
- "O senhor deve ser estúpido, um tolo".
Aí, alto! Fui então eu que lhe disse que não ia dar conversa a um "pateta".
O homem levantou-se abruptamente e disse, em tom ameaçador:
- "Queres ir resolver isto lá fora?".
Comecei a rir-me e respondi-lhe que não dava conversa a animais que não se sabem comportar em sociedade.
O homem veio disparado direito a mim e deu-me um pontapé na perna. Na hora, levou um soco na cara.
A gritaria atraiu todas as pessoas presentes na hemeroteca, que vieram separar-nos e tentar acalmar as coisas. Tudo ficou aparentemente serenado. Eu não arredei pé de onde estava, porque tinha uns 10 volumes de jornais antigos para consultar, o computador portátil ligado, o bloco, enfim, um universo de coisas para remover. O senhor estava apenas a ler um livrinho, por isso, entendi que se alguém tinha de se mudar era ele e não eu. Resultado: continuámos os dois sentados à mesma mesa. As coisas acalmaram.

Uns minutos depois, fui buscar mais um volume de jornais e passei junto àquela besta, que continuava com o seu livrinho. Quando ia a regressar ao meu lugar, carregado com um maço de jornais, vi que o gajo estava a olhar para mim fixamente, quase a espumar pela boca. O incómodo dele era, agora, o barulho dos meus sapatos a andar na hemeroteca. Que eu saiba eles ainda não distribuem chinelos, por isso, não tenho outra hipótese que não... andar, sempre que quero ir buscar alguma coisa. Mas o animal achava que não, que eu estava a fazer excesso de barulho. Passei mesmo junto a ele e não resisti:
- "Estás com algum problema?", perguntei-lhe.
O gajo levantou-se num salto e pumba!, outro pontapé na perna. E eu toma!, outro selo nas trombas.

A cena repetiu-se. Veio toda a gente, separaram-nos, mas desta vez veio também a funcionária, que resolveu correr connosco. Quando estava a arrumar a minha tralhinha, o animal ainda veio por trás de mim e deu-me um soco na cara, assim à traição, tipo gaja, mas teve azar, porque eu virei-me rapidamente e acertei-lhe em cheio por baixo do olho.

Resultado final: fiquei à rasca da mão direita. Imagino que ele tenha ficado com umas dores no ossinho da cara.

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Quanto mais se ama mais fraco se é

Mostrar amor a quem nos não ama rebaixa-nos a um nível de degradação. E a degradação só nos dá lástima e repulsa.
A única possibilidade de se ser amado por quem nos não ama é parecer que se não ama. Então, não se desce e assim o outro não sobe. E então, porque não sobe, ele tem menos apreço por si, ou seja, mais apreço pelo amante.
O jogo do amor é um jogo de forças. Quanto mais se ama mais fraco se é. E em todas as situações a compaixão tem um limite. Abaixo de um certo grau, a compaixão acaba e a repugnância começa. Assim, quanto mais se ama mais se baixa na escala para quem ao amor não corresponde.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 3"

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

A menina dos óculos

Um dia ela enviou-me um currículo e em anexo um texto. Todas as semanas me chegam currículos com textos em anexo, geralmente chatinhos, escritos por gente inexperiente e sem grande sentido de notícia - been there, done that.
Mas ao contrário dos outros, ela, a Vera, não me enviou em anexo uma notícia, mas sim uma crónica. E eu comecei a ler, e continuei, e continuei, e cheguei ao fim com vontade de ler mais.
Por norma, respondo a todas as pessoas que me enviam currículos. Digo quase sempre que neste momento não estamos a contratar pessoas, mas que os currículos ficam em base de dados, para quando precisarmos de jornalistas. Àquele mail da Vera respondi que não havia espaço no jornal para crónicas, mas que tinha gostado do que tinha lido e que ela devia continuar, porque tinha jeito. Continuámos a falar, e a coisa deu em amizade.
Há dias perguntei-lhe se tinha deixado de escrever. Lamentou-se que sim. Desafiei-a a abrir um blogue. E ela deu-o à luz agora. Vale a pena ir passando por aqui.

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

Os rótulos

CONVERSA DE GAJOS


- Essa gaja é uma puta.
Manel - É uma puta porquê?
- Já se enrolou com cinco gajos aqui do escritório.
Manel - E então? Isso faz dela uma puta?
- É uma vaca.
Manel – Não digas isso. Gosta de foder, e então? Tu não gostas?
– Cá para mim já a comeste.
Manel – Eu não, mas gostava.
– Aquilo é tudo fogo de vista. Estas vaquinhas que se mostram muito depois são sempre um bluff na cama. Nem imaginas o que o Toni diz da gaja.
Manel – Mas o Toni já a comeu?
– Acho que sim.
Manel – Achas ou tens a certeza?
– Eh pá, acho que sim. Já o ouvi a dizer coisas da gaja...
Manel – Tipo quê?
– Que a gaja é muito putinha. Parece que adora broche.
Manel – Então mas ainda agora estavas a dizer que a gaja é um bluff na cama...
– Um gajo ouve tanta coisa...

CONVERSA DE GAJAS

Maria – O Toni já se enrolou com a Carla, de certeza.
Ana – A sério?
Maria – Acho que sim.
Ana – Mas ela contou-te?
Maria – Não, mas é o que se diz.
Ana – Eu já ouvi que ele uma vez comeu duas miúdas estagiárias na mesma noite, depois de uma festa da empresa.
Maria – Pois. O gajo atira-se a tudo o que mexe.
Ana – A Raquel já caiu na teia dele.
Maria – Foi? Quando?
Ana – Era o que se dizia.
Maria – Ela contou-te?
Ana – Eu perguntei-lhe, mas ela diz que não. Mas tu sabes como é a Raquel.
Maria – É, ela é muito putinha. De certeza que já marchou.
Ana – E a Sandra? Essa sei eu que o Toni comeu. E mais do que uma vez.
Maria – Mas sabes como?
Ana – Pela conversa da Sandra no outro dia.
Maria – Então? O que é que ela contou.
Ana – Nada, mas estava com aquele discurso de quem já foi para a cama com ele, de certeza.
Maria – Mas disse que foi?
Ana – Não, disse que não foi, que houve clima e tal, mas que não se comeram. E tu acreditas?
Maria – Conhecendo a Sandra, não. Comeram-se de certeza. Aquele Toni come mesmo tudo o que mexe.
Ana – Pois. Olha, e a ti, já te comeu?
Maria – A mim não. E a ti?
Ana – Também não. Mas já te tentou comer?
Maria – Não. Mas olha para mim de uma maneira...
Ana – Pois, comigo também nunca tentou, mas também já percebi pela forma como ele fala comigo que me quer saltar para cima. Era só eu querer.
 
 
O prazer de falar da vida dos outros, de acrescentar pontos aos contos, de enfabular uma realidade que é quase sempre cinzentona e sem graça deve ser inerente à condição do ser humano. Conheço poucas pessoas que sejam diferentes, que se estejam manifestamente nas tintas para o que os outros fazem ou deixam de fazer. Só que quem fala dos outros, muitas vezes sem conhecimento (só porque ouviu dizer, porque se comenta, porque consta que é assim) não mede a dimensão do dano que pode estar a causar. O prazer de falar, de comentar, de fofocar sobrepõe-se a tudo. Que se lixe o outro, porque é um garanhão, que se lixe a outra, porque é uma puta, o que interessa é fazer continhas à quantidade de vezes que cada um se enrolou com alguém, ou à quantidade de vezes que se diz, ou que parece, ou que consta, que cada um se enrolou com alguém, porque é divertido falar, é divertido espalhar a fama dos outros.
 
O que estas pessoas não pensam é que também elas são vítimas de outras famas (ou das mesmas), que são arrasadas nas costas pelas mesmas pessoas que com elas conspiram sobre as vidas alheias.
 
Num mundo em que os rótulos definem personalidades, parece que só se vence sendo duro, insensível, filho da puta. Se calhar é disso que todos precisamos, de um novo mundo de filhos da puta.

quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Bate palmas

Não sei se era daquelas reportagem sobre sem-abrigo, se era uma entrevista de vida, sei que um dia ouvi uma pessoa qualquer a lamentar-se e a dizer que gostava mesmo era de ser "bate palmas". Não percebi. Bate palmas? Enganou-se? O que é isto? Depois percebi. Aquela pessoa gostava de receber dinheiro para ir bater palmas em programas de televisão, como muitos outros inscritos em agências de casting.

Hoje passei boa parte da manhã no meio de bate-palmas. Metade eram reformados bem na vida (pelo menos vestiam bem, falavam bem), de resto havia de tudo, desde o rapaz de 30 anos que se começou a exibir com movimentos de capoeira no chão até à mãe que levou a filha de 14 anos contrariada - de certeza que ela preferia ter ficado na cama, já que deve estar de férias de Natal, mas o dinheirinho extra por ir mais uma pessoa deve dar jeito lá em casa.
Mas o que ficou foi a excitação, o entusiasmo, a forma como quase todas aquelas pessoas, os bate-palmas, vibravam ainda antes de o programa começar. Comentavam a chegada das estrelas da estação, especulavam sobre os assuntos que iriam ser abordados nos programas, comentavam os adereços dos elementos da produção, enquanto se enchiam com os mini-croissants e as sandochas de pão de forma sem côdea.

O programa começou e eu continuei por mais uns instantes fora do plateau, a apreciar. A alegria não era falsa. Lá dentro, as gargalhadas eram naturais, sonoras, as palmas muitas vezes espontâneas.
Os bate palmas não estão ali pelo dinheiro. Estão ali porque se divertem.
Quando for reformado também quero ser bate palmas.

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

O meu Edward Bloom


Descobri há uns anos que sou filho do Edward Bloom, e que não existem apenas Edward Blooms nos mundos fantasiosos e criativos de Tim Burton. Há Edward Blooms lá, no cinema, nas backstories dos grandes argumentistas, que se esforçam por inventar personagens fascinantes, como há Edward Blooms cá, a viver as suas vidas de faz-de-conta, a contar as suas histórias mirabolantes a quem gosta de se deixar levar.


Cresci a ouvir, encantado, as histórias do meu Edward Bloom. Como naquela noite tão escura, tão escura, tão escura em que ele me revelou, pela primeira vez, a sua verdadeira identidade. Afinal, o meu pai era o Homem-Aranha, o meu herói da banda desenhada. Estava ali comigo, naquele quarto, na Praia das Maçãs, mas logo que eu adormecesse teria de subir pela teia até à sétima nuvem, a verdadeira casa do senhor mascarado de vermelho e azul.

Quando percebi que, afinal, não havia Pai Natal, o Homem-Aranha não podia ser o meu pai e o meu herói já era o Bento, guarda-redes do Benfica, fui encantado por outra história, a da noite em que ele, o meu pai, pisou o relvado do Estádio da Luz, equipado à Académica de Coimbra, acabado de saltar do banco de suplentes para marcar um penálti ao Costa Pereira, o lendário número 1, campeão da Europa e titular da Selecção Nacional. O meu pai fez o golo, mas a Académica perdeu por 4-1.

E depois vieram as histórias da guerra do Ultramar, das namoradas que podiam ser miss mundo, dos feitos no jornalismo, das amizades tu-cá-tu-lá com gente que enchia revistas e abria telejornais. E eu sempre lá, a ouvir, já sem encanto, já sem crença, mas com a certeza de que, ao deixá-lo contar, ao deixar o Edward Bloom ser apenas ele, o Edward Bloom, estava a fazê-lo feliz, a oferecer-lhe o brilho de que ele precisava como de ar para respirar.

Tal como o outro Edward Bloom, o do Tim Burton, também o meu viveu aventuras ao lado de gigantes e anões, mulheres com dois torsos e bruxas mágicas, poetas e assaltantes de bancos. Eram todos eles que abrilhantavam as histórias, davam-lhes grandeza, profundidade, validade, traziam sorrisos a quem as ouvia e inveja a quem não as tinha vivido. Era para mim que invariavelmente se viravam os olhares dos que, no fim, me diziam: “Quem me dera ter um pai assim, com tantas histórias incríveis”. Eu devolvia o sorriso, já que era só o que podia fazer.

As histórias do velho Bloom, o do cinema, tinham tanto de bonito como de inocente. Eram fantasias que serviam para dar cor a vidas cinzentas, davam essência a dias que, de outra forma, não teriam o porquê de ser recordados. Como a história que Bloom criou para contar ao filho sobre o dia em que ele nasceu. Disse-lhe que nesse dia capturou um peixe gigantesco – o Big Fish – que lhe havia comido a aliança, e que ele o obrigou a cuspi-la, já que ele não lhe admitia que lhe roubasse o símbolo do amor que tinha pela mãe do rapaz. Mais tarde, à beira da morte, o filho ouviu do médico que assistiu ao seu nascimento, que o pai nem sequer lá estava, e que não houve peixe algum, e que o parto correu bem, que foi normal, e que nada de especial ou diferente aconteceu. E o miúdo sorriu, e preferiu continuar a pensar que no dia em que nasceu, afinal, houve peixe, e aliança, e uma história para animar plateias em dias de festa.

Muitas histórias do meu Bloom eram assim, inocentes, como a do Homem-Aranha ou a do golo no Estádio da Luz. Mas muitas outras tinham pouco de risível, e muito de coisa séria. E enquanto a ouvi-las estava apenas eu, o eterno ouvinte, o ouvinte inocente e que se limitava a sorrir com ternura a ouvir aquelas fantasias mascaradas de verdade, não havia problema. Só que as histórias, fantasiadas, e sobre coisas sérias, foram sendo contadas umas e outras vezes a toda a gente, a gente nada habituada a ouvi-las, gente que se encantava de facto por não as perceber como fantasias, mas como verdades. Só que essas fantasias duravam pouco e, quando reveladas, criavam desencanto, raiva, inimigos, guerras, ódios. E o meu Bloom não parou de as contar. E foi contando e contando e contando, e as pessoas foram desaparecendo. Os gigantes, os anões, as bruxas e os assaltantes de banco continuaram a ser histórias na boca do meu Bloom, mas, num estalar de dedos, a plateia deixou de estar lá.

As cadeiras estão vazias. A tenda há muito que foi desmontada. E, sozinho, o Bloom continua a pregar.

No dia em que morreu, o Bloom do cinema teve lá os seus gigantes, anões, bruxas, poetas e assaltantes de bancos.

No dia em que morrer o meu Bloom não terá lá ninguém. E nem as histórias, as fantasias, ficarão para contar. Porque já não encantam, apenas envergonham.

Publico agora aqui este texto porque é no Natal que mais me dói.

É Natal. É? É. É o nosso.

Nasce um daqui, depois outro dali, há os que se vão, mas os que chegam fazem-nas maiores, quase sempre mais felizes, e é nesta altura, no Natal, que isso mais se nota.

Connosco não é assim. Os anos passam e somos menos, ainda que niguém se vá e ainda que os miúdos estejam cá. O que para os outros é a época de paz, para nós parece ser altura de divisões, de dias tristes cá dentro. Já foi assim comigo, já foi assim com outros de nós, é agora assim contigo, o que faz com que seja assim connosco.

Esta é também a altura do amor. O que nos vale é que para nós, os que ficam, o amor está lá o ano todo, e não apenas agora. É ele que nos une. É ele que nos dá a certeza que dê as voltas que o mundo der nunca largaremos as mãos.

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Comidinha à boca

A discussão começou à tarde e prolongou-se pelo jantar: se dois amigos vão jantar juntos é normal um dar comidinha à boca do outro sem que isso signifique que há ali um climazinho? As opiniões dividiram-se. Eu acho que depende de algumas variáveis.

Se dois amigos solteiros, que se conhecem há relativamente pouco tempo (menos de um ano, vá) vão jantar juntos, só os dois, e a meio o rapaz começa a dar comidinha à boca da amiga, então, ele quer saltar-lhe para cima. Quer, não tenham dúvidas, não sejam ingénuas. É óbvio.
Claro que se forem dois amigos que se conhecem há 10 anos, e que já jantaram juntos 50 vezes, a coisa muda. Não significa que não posso nascer ali um clima, mas é muito mais normal que isso aconteça fruto de uma brincadeira e não de um jogo de sedução. Ainda assim, repito, pode também ser um impulsionador de clima.

Eu tenho poucas amigas com quem sairia e a quem daria comidinha à boca, sem que isso significasse nada. Não me lembro, aliás, de alguma vez ter dado comida à boca de uma amiga, porque acho que se o fizesse ela interpretaria isso (e bem) como uma investida minha.

Por isso, minhas caras, se um dia um quase desconhecido vos levar o garfinho à boca, não é para vos alimentar, é para vos comer.

A picanha com alho

Nunca percebi a questão da picanha com alho nos restaurantes de rodízio. Parece que a picanha com alho é a última Coca-Cola do deserto. Salsichas e coxinhas de frango vêm a toda a hora, lombo, presunto, maminha é só pedir, agora a picanha com alho uuuuuuuuuuuuhhhh, a picanha com alho é o Santo Graal dos rodízios, uma coisa sagrada, única, que até deve ser cozinhada num sítio diferente e tudo. Ai de quem peça para trazerem mais picanha com alho. "Ah, vai demorar", ou "Ainda está a fazer", ou "Ainda agora veio" é o que eles costumam responder. E quando ela vem nem nos deixam tirar dois pedaços. "Ah, cara, assim não vai dar para toda a gente".

Mas o que é que aquilo tem de especial? É picanha, mas tem alho, pronto, é só isso. Qual é o problema de trazerem à mesa com a mesma frequência que as outras carnes?

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Para o Natal, de presente, elas querem que seja... uma lingerie porquinha



Não percebo os homens que não oferecem lingerie. Uns acham que é pouco macho, outros não têm coragem de entrar numa loja de roupa interior e há ainda os que não compram porque não sabem que número é que devem comprar (shame on you).


Comprar lingerie não é comprar roupa interior. O homem não serve para comprar roupa interior, serve para comprar lingerie. E comprar lingerie é comprar aqueles conjuntinhos sexy, a puxar para o porquinha, para o putinha, que nos deixam loucos. E deixam-nos loucos, não por causa da lingerie, mas porque são vocês a usá-la.

Os homens gostam de novidade, gostam de atrevimento, gostam de mulheres fogosas e com iniciativa. Ao vestirem estes conjuntinhos marotos vocês transformam-se, adquirem super-poderes, tornam-se em mulheres novas, sendo que mantém aquilo que nós mais gostamos: são vocês, continuam a ser vocês, a mulher que amamos.
Oferecer lingerie atrevida é quase como que comprar os serviços de uma menina profissional, com as vantagens de não ter de se pagar muito (há lingerie porquinha de alta “qualidade” na Primark ou na La Senza a menos de 10 euros) e podendo comer a nossa própria mulher.
Por isso, senhores, não gastem tudo em meias, pijamas de avó e malas foleiras (que elas vão dizer que são muito lindas e depois vão trocar). Arrisquem. Não se vão arrepender.

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

My bad Lucky (e o resto da lista)

Quando o carro arrancou eu sabia que nunca mais os voltaria a ver – e anos mais tarde, quando voltei lá, também tinha a certeza de que eles já lá não estavam. E não estavam.

Naquele dia, enquanto o meu pai levava o Citroën BX castanho, tipo banheira, por travessas e avenidas de uma Lisboa que para mim, miúdo, era um mundo, eu lançava olhares para as placas com os nomes das ruas, como Hansel atirava pedaços de pão para o chão – eu queria voltar, eu tinha de voltar àquele sítio, ao sítio onde estava uma parte de mim.

Eram uns 40 e andavam comigo para todo o lado. “O Bandido Maneta”, “Os Dalton Regeneram-se”, “Daily Star”, “Os Rivais de Painful Gulch”, “A Diligência”, “Jesse James”, se não os tinha a todos, tinha-os quase a todos. Até tinha uma mala própria para os transportar, uma mala cinzenta, quadrada, com duas rodinhas (só uma é que rolava, a outra tinha defeito) e uma asa para a puxar, porque os meus bracitos de 11 anos não aguentavam tanto peso.

Por aquela idade a minha vida andava à volta dos jogos do Spectrum 48k e dos livros do Lucky Luke. O computador já estava habituado a ficar em casa, até porque para funcionar obrigava à presença de gravador, televisão, cassetes, enfim, uma logística que o tornava intransportável. Já os livros não. Esses tinham a tal malinha cinzenta, quadrada, com a rodinha defeituosa, e cabiam todos lá dentro, apertadinhos.

Com os irmãos longe, Jolly Jumper, Rantamplan e os Dalton eram meus companheiros de todas as noites. Era neles que pensava, era com eles que sonhava, eram as suas aventuras que me faziam feliz. Em frente ao espelho também eu sacava de uma arma, em tempos em que nem sabia o que era o Taxi Driver. Só queria ver se conseguia ser mais rápido do que a minha sombra. Não era. Nunca era. Por isso continuava a tentar, porque achava que um dia, se tentasse muito, muito, muito, conseguiria.

De cada vez que mudava de cidade, lá ia a minha roupa na mala vermelha, a minha vida na mala cinzenta. Mais do que saber se o meu novo quarto era grande, queria saber se naquele sítio novo havia livrarias. E se nessas livrarias existiria algum livro que me faltava na colecção. Uma nova descoberta implicava ir à lata amarela de Nesquik onde se amontoavam moedas dos trocos dos jornais que comprava para o meu pai e as notas que os tios e os avós ofereciam nos dias que me visitavam. Só saíam de lá para as mãos do senhor livreiro, que, em troca, me oferecia corações aos saltos em forma de livro animado.

Numa semana era capaz de o ler 20 vezes - três vezes ao dia. Cada livro novo tinha em mim o efeito do encaixe da última peça num puzzle. A minha vida era esse puzzle, que se completava com pouco, com o tal livro novo.

Um dia, naquele dia, que foi mais um dia em que mudei de cidade, perdi-os para sempre. Uma visita a Lisboa, uns dias num hotel não muito caro numa esquina perto do Marquês de Pombal, terminaram com uma fuga, uma fuga para a frente, uma fuga sem retorno, uma fuga que eu nunca percebi e jamais esqueci. A bagageira do Citroën BX, a banheira, que chegara com as minhas duas malas, a vermelha e a cinzenta, partia agora apenas com uma, com a que não me fazia falta, com a que eu queria que tivesse ficado para trás.

O meu pai fugia para não ter de pagar a conta. Paguei-a eu. E não foi com dinheiro.

Quase 20 anos depois apanhei as migalhas de pão que deixara no chão naquele dia, segui as pistas da memória, os nomes das ruas, das travessas de uma Lisboa que então já dominava, e encontrei o hotel onde ficara a mala da rodinha torta com os meus livros.

Na recepção contei à senhora a história dos livros, da mala, da fuga, do meu amor pelo cowboy solitário e pelo seu fiel cavalo. Contei-lhe tudo com um sorriso que não o era. Ela devolveu-mo. E eu sabia que era tudo o que ela me podia dar.

De há uns meses para cá, a minha P. começou a comprar-me alguns dos livros que perdi, ao ritmo de 1 ou 2 por mês. Ainda me faltam muitos para ter a colecção inteira de volta. Eis os que já recuperei (e alguns novos, que entretanto sairam, que eu não conhecia, e que já tenho):
O Artista Plástico, O Daily Star, Kid Lucky, Jesse James, A Diligência, 7 Histórias de Lucky Luke, A Balada dos Dalton, Lucky Luke no Quebeque, Os Rivais de Painful Gulch, Os Dalton e o Psicólogo, Os Dalton no Casamento, A Evasão dos Dalton, A Lenda do Oeste, O Profeta, O Tenrinho, O Homem de Washington, O Grão-Duque, À Sombra dos Derricks, Mã Dalton, O Bandido Maneta, Os Dalton Continuam À Solta, A Corda do Enforcado. 

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Todos os dias eu sei que te amo.
Mas há uns dias em que eu sei isso e apetece-me dizê-lo ao mundo inteiro.

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

A minha pequena lista de Natal

Como sou um rapaz modestinho a pedir, e como gosto de receber coisas que me irão fazer, efectivamente, feliz, aqui fica a minha lista de presentes possíveis e impossíveis para o Natal.

1. Snowblades (para quem não sabe, são uns esquis mais curtinhos, óptimos para fazer 360º)















2.  Botas de esqui (as melhores são as da Salomon, Head e Atomic)




















3. Passadeira (para correr em casa quando me levanto, e poder deixar de ir ao ginásio) - podem comprar em prestações, pagar uma ou duas e eu pago as outras, em vez da mensalidade do ginásio)




















4. Ténis Adidas Gazzelle



















5. Ténis Nike Dunk High North azuis e pretos




6. 24 (season 7)




7. Dexter (season 1)




8. Entourage (season 5)




9. Heroes (season 3)





10. Sem Rasto (season 4)




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11. Livros do Lucky Luke (Ainda me faltam uns quantos para terminar a colecção, em breve digo exactamente quais)
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12. A Terra das Ameixas Verdes, Hertha Muller
 
 



13. Livros do Murakami que eu ainda não tenha (como este)




14. Livros do Roberto Bolaño (só tenho o 2666)





15. Bota de futebol (para jogar em piso sintético, ou seja, de pitons curtos)



16. Bola de futebol



17. Roupa gira (camisolas quentinhas catitas)
18. Óculos de sol (podem ser iguais ou parecidos com os que me partiram)
19. Umas luvas de pele (pretas ou castanhas escuras)
20. Um livro de receitas Bimby que eu ainda não tenha (pode ser fotocopiado)

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Dirty Talk

Mais um texto que fui buscar a uma vida antiga:


Ora aqui está mais um tema que promete dar que falar. Dirty talk (palavrões utilizados durante o acto ou o pré-acto sexual - digo isto como se quem viesse aqui não o soubesse).

Nunca conheci uma mulher que não gostasse de dirty talk. Mas há que distinguir entre mulheres que gostam de dirty talk, mulheres que gostam de very dirty talk e as badalhocas.

Mulheres de categoria dirty talk 1.

Um homem gosta de uma mulher que goste de dirty talk. É excitante ouvi-las dizer palavrões na cama. E elas também se excitam ao ouvir-nos insultá-las, elogiá-las, sempre recorrendo a expressões que não repito aqui porque a minha mãe lê o meu blogue.

Mas mesmo dentro desta categoria é possível encontrar duas espécies diferentes. Há mulheres que só gostam de ouvir dirty talk. E há mulheres que só gostam de usar dirty talk. Vá-se lá perceber. Os homens gostam mais da mistura. Das que dizem e das que gostam de ouvir.

Mulheres de categoria (very) dirty talk 2.

Os homens gostam de dirty talk. Mas há mulheres que esticam a corda. Esticam, esticam, esticam, e às tantas um gajo nem se consegue concentrar no que está a fazer. Em vez de ficarmos excitados, começamos a pensar duas vezes em relação à senhora que está ali à nossa frente.

Bom, um exemplo, para que percebam a diferença. (mãe, é só desta vez, sim?)

Um homem gosta de um mulher que diz "fode-me toda", que diz "come-me aqui", que diz "adoro chupar-te todo". E pronto, se forem um bocadinho mais além também não há problema.

Um homem acha estranho que uma mulher diga "fode-me como se eu fosse uma puta reles", ou "mete-me o c*#+#*+ pela c*#* acima e chama-me cadela de rua". E isto leva-nos até às badalhocas.

Badalhocas

As badalhocas são mulheres que acham que dirty talk é dizer palavrões... a toda a hora. É a gaja que vai ao volante no carro, um gajo apita-lhe para ela avançar e ela mete a cabecita de fora e diz: "Chupa-me mas é a c#*-#* oh paneleiro do caralho". Não, nenhum homem se excita com isto. Fechamos o vidro, metemos a viola no saco e pensamos. "Ganda badalhoca!"

E pronto, é isto.

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Fuck Buddies

É algo de que se fala cada vez mais, um fenómeno que nada tem de novo, mas que parece que começa a entrar nas conversas de café. Escrevi sobre ele numa outra vida. Dizia mais ou menos isto:

Cada vez mais gente que conheço - solteiros de longa data, principalmente - tem fuck buddies, que mais não são do que amigos fixos com quem se vai para a cama de vez em quando.

Os fuck buddies fazem sentido nos dias de hoje, em que é cada vez mais difícil encontrar alguém. A busca é longa, penosa, e muitas vezes temos de ir aliviando tensões e praticando exercício.

Para os solteiros, os fuck buddies são uma coisa saudável. As duas partes sabem que não há qualquer tipo de compromisso, não há amuos quando um dos dois não está disponível naquela noite, há cumplicidade, há sexo - que geralmente é do bom, porque se não fosse não se encontravam para esse fim - e depois vai cada um à sua vida, sem necessidade de muitos abraços forçados e carinhos exagerados.
Mas os fuck buddies têm um problema: por vezes não aceitam muito bem quando o companheiro de queca arranja outra pessoa. Depois há mensagens a horas indevidas, há inícios de conversas picantes sem necessidade, há surpresas que ninguém gostaria de ter.
Um fuck buddy deve aprender a colocar-se no seu lugar e perceber o seu papel enquanto fuck buddy. A coisa existe até alguém encontrar namorado. Depois, não faz mais sentido. Mas muitas relações, principalmente em fases iniciais, são minadas por estes ex-amigos, que não sabem posicionar-se perante o novo cenário. E de fuck buddies passam a mother fuckers.
Um fuck buddy, ou uma fuck buddy, pode ser mais perigosa para uma relação do que uma ex-namorada ou ex-namorado. São pessoas que não têm nada a perder e não têm razões objectivas para deixar de sugerir encontros. São fantasmas que pairam. Nuvens negras.
A maior parte dos homens que eu conheço tem dificuldades em lidar com estas situações. E tem por uma razão: porque não querem partir a corda. Ou seja, não querem despachar de vez a moça com quem mandavam umas fodas de vez em quando porque não sabem o dia de amanhã. Mas são também estes homens - os que não afastam as nuvens negras - que, geralmente, não conseguem ver o sol na sua plenitude quando mergulham numa relação nova.

Fazem-se a uma estrada nova, com um carro novo, mas esquecem-se de tirar as pedras do caminho. Resultado: qualquer dia espetam-se.

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Sai um quilo de felicidade para a mesa 3

Parece uma verdade universal a que diz que é cada vez mais difícil encontrar gente interessante neste mundo. Disto se queixam os homens, disto se queixam as mulheres.

Dizem eles que elas são desinteressadas, que só querem saber de futilidades, que gostam de ver a novela, que só pensam em copos e noitadas como se fossem miúdas de 18 anos, que não sabem o nome de um único ministro, que não gostam de ler e passam o dia enterradas no sofá à espera que o tempo passe e em frente a um programa bocejante. E estas são as miúdas giras.

Dizem ainda eles que elas são muito simpáticas, cultas, divertidas, interessadas e inteligentes. Mas estas são as miúdas feias.

Dizem eles que encontrar o melhor dos dois mundos é, hoje, tarefa quase impossível. E as Martas Rebelos e Joanas Amaral Dias deste mundo já devem andar atracadas a um feioso qualquer, mas que certamente ouve Mozart enquanto caga.

Dizem elas que os homens interessantes estão ocupados e os que não estão também não querem estar amarrados a compromissos, e os que querem são infantis, ou instáveis, ou depressivos, ou desarrumados, ou meninos da mamã, ou irresponsáveis, ou não tomam banho, ou tiram macacos do nariz, ou não lhes dão atenção, ou não são dedicados, ou não são românticos, ou esquecem-se de datas importantes, ou têm pavor a planos, ou isto tudo junto, ou pelo menos incorporam dois ou três factores destes.

Por tudo isto é hoje quase impossível ter daqueles primeiros encontros escaldantes, cheios de adrenalina e surpresa, em que ficamos ali na dúvida se queremos ir já para a cama com aquela pessoa ou se queremos continuar na fase do conhecimento mais uns tempos.
É esta a explicação que encontro para o artigo que faz capa da revista "Sábado" de hoje, escrito pela minha queria amiga Isabel, e que conta como mulheres de bem com a vida pagam entre 250 e 2000 euros por encontros com homens, que terminam quase sempre em sexo, e do bom, dizem elas.

Será esta uma tendência em crescimento? Passarão as mulheres a ir cada vez mais às suas "putas" para satisfazerem as suas necessidades primárias? Talvez.

E aqui reside outro aspecto importante deste assunto, e desta reportagem: as necessidades primárias das mulheres bem sucedidas de hoje. Acredito que gostem de sexo, de uma  foda daquelas mesmo boas, mas isso não basta. Enquanto que um homem pode aliviar-se com uma queca, uma mulher precisa de mais, precisa de algo mais. E é isso que estas "putas" masculinas oferecem. Uma das ouvidas na reportagem diz que paga pela companhia, e que o sexo é grátis. E isso diz tudo. Os homens que se vendem, não vendem o corpo, vendem uma noite de conversa agradável, uma companhia de jantar que fala de viagens, de livros, do mundo de hoje, um homem que seduz, que convida para dançar, que sabe estar, que é bonito, que sabe tocar, que domina o poder de um olhar; este homem é o homem que as mulheres queriam ter disponível várias vezes, todos os dias, mas que não podem ter mais do que umas horas, é o homem que as domina e as faz sonhar ao ponto de chegarem à altura do sexo e ele surgir como algo de natural, como o passo seguinte mais lógico, e não como a obrigação.

Verdade também é que as mulheres bem sucedidas, tal como os homens bem sucedidos, têm poucas vezes tempo para cultivar um relação como deve de ser. Podem ter um parceiro ou uma parceira perfeitos em casa, mas lá está, eles estão em casa e o outro está a trabalhar. Ser bem sucedido, hoje, é sinónimo de ter um bom emprego, de ganhar bem, de ter um apartamento bem decorado e um carro fantástico na garagem. É isto que para as pessoas é a imagem de alguém bem sucedido. Nada mais errado. Estes são os profissionais de sucesso, os workhoolics, os maníacos do trabalho, para quem ter uma conta bancária cheia de números é sinónimo de realização.
Infelizmente, é cada vez mais difícil ser-se, de uma forma geral, bem sucedido. Para se ser um grande profissional tem de se ser um marido ou uma mulher ausente, um pai ou mãe ausente, um filho, sobrinho ou neto ausente. A conta bancária não compensa nunca o que se perde na vida. Servirá, quanto muito, para umas noites agradáveis com putas mulheres ou putas homens. É a felicidade vendida ao minuto, à noite, ao fim-de-semana, ao quilo. Mas para este gente, quase sempre, chega.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

A morte de um sonho que é amor

Truman Capote escreveu um dia que "A morte de um sonho é tão triste e dolorosa como a própria morte" e que por isso "merece o respeito e o luto daqueles que a sofrem".
É triste ver morrer um sonho, mais quando é um sonho de vida, um sonho que chegou a ser real, que foi alimentado, que nasceu, cresceu e agora definha à nossa frente. Pior é quando esse sonho se fez a partir de nós, de esforço, de lágrimas, de sofrimento, quando demos tudo por ele e o tudo não foi suficiente, porque pelos vistos o sonho precisava de mais, ou de coisas diferentes, ou de outra pessoa a tratar dele que não nós.
Há quem nos mate os sonhos, e a esses ganhamos ódio, depois desprezo, e com o tempo indiferença, que poderá até acabar em compreensão, e num entendimento amistoso, porque o tempo faz milagres, e todos aprendemos isso, precisamente, com o tempo.
E depois há os sonhos enterrados por nós, funerais que nos destroem tanto ou mais do que os outros, projectos de vida que deixam de o ser, pedaços da nossa existência numa ida sem volta, braços que se baixam com tudo o que isso significa. Quando matamos um sonho, quando nos decidimos a matá-lo, assumimos uma derrota, um falhanço, e vem então a frustração, a sensação de que somos uns falhados, de que não servimos para nada, de que somos uma merda.
O amor perfeito é um sonho que nunca se torna real, mas que por via dos filmes e das histórias de cinderelas queremos que nos apareça pela frente, queremos descobri-lo numa mesa de um café, num banco de jardim, na casa de um amigo, no elevador do local de trabalho, à porta de um bar no Bairro Alto ou no Facebook. O tempo - lá está, o tempo - vem mostrar-nos que os amores perfeitos têm a duração de uma vivência curta, porque depois vêm os problemas, as rotinas, vai-se o encantamento, some-se o frio no estômago, e o que fica tem de ter força para nos fazer querer ficar também. Mas quando ficamos, não podemos ficar por ficar, não nos podemos contentar com um passado que foi muito bom, mas que é passado. Não é. O presente é o que nós quisermos que ele seja, e se nós quisermos que ele seja igual ao passado não devemos deixar de lutar por isso. As surpresas existem quando queremos que elas existam, tal como os desafios, as loucuras, os planos atrevidos ou utópicos, os sonhos acordados, tudo é possível, basta querer-se.
Havendo sempre isso, haveria amores perfeitos. Mas nunca ninguém quer lutar sempre, nunca ninguém quer dar-se ao trabalho de lutar pela relação perfeita, e é daí que vem a resignação, o contentarmo-nos com o pouco que temos, o dar graças por isso, porque há gente muito mais infeliz e miserável.
Mas a vida não é isso. O amor não é isso. E quando o nosso presente é isso, quando o nosso amor está reduzido a isso, não é amor, é apenas o que resta dele, e o que resta dele não nos preenche, não nos alegra, não nos serve, faz-nos querer outro amor, faz-nos querer viver outros amores, os ardentes e apaixonados, os tais dos frios no estômago e das surpresas, o dos primeiros beijos e das descobertas.
Nunca devemos pensar que vamos viver o amor perfeito. Mas só lutando por um amor perfeito conseguimos viver o melhor amor possível. E então seremos felizes.
 

domingo, 15 de Novembro de 2009

Deve ser o tempo, que me quer igual a ele.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Henry, the first

Foi há um mês e meio que pressenti que me morrias, que tinhas ido sem avisar.
Soube depois que ainda estavas aí, mas aquele peso com que acordei, a ideia de te perder e o medo continuaram.
Eu sei que um dia te vais, como sei que nunca te deixarei ir.

Parabéns

Parece que foi ontem que a encontrei no metro e que ela me disse, num sorriso embaraçoso, que estava grávida.
A Sara nasce hoje, por estas horas.
Bastar-te-á seres como a tua mãe e serás grande.
Parabéns, Si.
Parabéns, Ricardo.
Bem-vinda, Sara.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Henry

Posso faltar-te, posso gritar-te, posso dar-te uma palmada, posso pôr-te de castigo, posso obrigar-te a comer a sopa de que não gostas, posso recusar-te a Coca-Cola e o chocolate, mas basta que passe 1 minuto para que me respondas a tudo isto com um abraço e um "gosto muito de ti".

Ao contrário de mim, tu não me faltas, tu nunca me faltaste, mas fazes-me tanta falta.
Nem sabes quanta.
Cansei-me de ser eu.
Aconteceu, e ainda não passou.
Então meti férias de mim.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

The Groom

Já me tinham dito que o papel do noivo em todo o processo de um casamento é mais ou menos acessório, que não é mais do que o tipo que está lá no altar (discreto, quietinho) à espera que chegue a estrela do dia. E a verdade é que é mais ou menos assim. Mas também não é uma coisa particularmente aborrecida.

Ninguém quer saber como é que vai ser o fato do noivo. O próprio noivo só se preocupa com o assunto um mês antes do casamento - e basta!, diria até que um mês até parece muito. É um fato escuro, normalito, e a variação que se impõe é a do laço/gravata, e a cor do mesmo.

Ninguém quer saber de como é que o noivo vai levar o cabelo. Será com o usa sempre, e se for muito diferente disso pode criar irritações, por isso, é melhor não inventar.

Ninguém quer saber o que o noivo acha do vestido da noiva, até porque o noivo não o pode ver.

Ninguém pergunta ao noivo com que música é que ele quer entrar na igreja, porque a essa hora já toda a gente só consegue pensar na noiva, no vestido da noiva, no atraso da noiva, no quão deslumbrante ou pindérica deve estar a noiva (é até normal muita gente nem se aperceber da chegada do noivo).

Ninguém liga verdadeiramente aos padrinhos do noivo. Até porque o papel deles é residual. Não têm de ir ver vestidos, não têm de organizar despedidas de solteiro, não têm de opiniar sobre decorações, acessórios de moda, etc.. São pessoas que estão ali ao pé do noivo, mas também eles expectantes sobre o vestido da noiva.

Também o noivo não costuma ser muito imperativo no que toca a datas exactas ou locais. Geralmente é a noiva que diz "o casamento tem de ser neste dia, porque faz neste dia dois anos que nós comemos pela primeira vez um gelado de framboesa e nata", ou "o casamento não pode ser nesta quinta porque tem uns azulejos de parede assim, porque tem uma decoração assado, porque as mesas são de 8 lugares e não são de 10, porque o Frederico e a Mafalda casaram-se aqui e eu odeio-os". Para o noivo, por norma, é tudo mais ou menos indiferente, e as imposições não são radicais.

Eu só tenho uma certeza: é contigo que quero casar.
O resto, é como te fizer mais feliz*.

* Se o local do copo d'água não tiver chão de churrasqueira eu agradeço, pronto.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

As coisas simples da vida

Há meses que observo isto, e acho que chegou a hora de falar do assunto.

Mas por que é que as pessoas que andam de metro têm medo de colocar o passe, ou o bilhete, no local de leitura das bandas magnéticas? É que praticamente ninguém o faz. Senão vejamos.

Os atravessados. São aquelas pessoas que põem o passe na diagonal para ver se, assim, o leitor o identifica. Há ali uma aresta do cartão que toca no leitor de banda, mas o resto do passe está na diagonal. Por normal, esta operação demora uns 7 segundos, porque, como é óbvio, o leitor não capta logo o chip do passe, o que faz com que estas pessoas vão descendo devagarinho o passe, muito devagarinho, até ele ficar praticamente paralelo ao leitor, que então lá abre as portas. E eu atrás à espera.

Os ai-não-me-toques. Estes nunca, em momento algum, ousam tocar com o passe no leitor da banda magnética. Aproximam o cartão uns 10 centímetros para ver se assim resulta – nunca resulta, meus caros, vocês já andam de metro há muitos anos, todos os dias, e já deviam saber isso. Claro que acabam por ir baixando o cartão lentamente, até que, quando estão a uns dois centímetros do leitor, as portas abrem-se. E eu atrás à espera.

Tirar o cartão da mala? Nunca na vida. Só me falta ver alguém tentar meter uma mala de viagem em cima do leitor, para ver se, mesmo assim, as portas se abrem. É que há gente que passa por lá carteiras, porta-moedas, malinhas de mão, malas de tiracolo, mochilas, tudo com a preguiça de tirarem de lá de dentro a porcaria do passe. Dá assim tanto trabalho? Não é muito mais aborrecido ficarem 15 segundos à espera até que consigam encontrar a posição certa que permita ao leitor reconhecer o cartão? E eu atrás à espera.

Esfrega, esfrega. Estes são os mais engraçados. É aquela malta que até põe o passe em cima do leitor, mas que depois, em vez de o deixar lá quietinho, não, começa a esfregá-lo, a agitá-lo de um lado para o outro, como se assim fosse mais fácil ao leitor reconhecer o cartão. Não percebo.

É aqui ou é ali? Como é que isto funciona? Depois há aquela malta que nunca anda de metro e que quando anda não sabe o que fazer ao bilhete. São os que ficam a olhar para todo o lado a ver onde é que se enfia o cartãozinho verde. E como não há ali nenhuma ranhura não sabem o que fazer. E põem-se a olhar para as pessoas do lado para ver como é que é. O pior é que na maior parte das vezes, ao lado, está um dos quatro tipos anteriores de pessoa. E como elas vêem essa malta a pôr o cartão na diagonal, ou a esfregá-lo, ou a colocá-lo a 50 centímetros do leitor, tentam imitar, e a coisa não resulta.

É simples, meus caros, agarrem no passe, coloquem-no em cima do leitor e deixem-no ficar lá. Vão ver que 1 segundo depois as portas abrem-se. Depois é só recolherem o passe e irem à vossa vida.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Uma manhã

Hoje acordei com a urgência de adiantar trabalho, com a necessidade de arrumar a casa, com a pressa de ir trabalhar, com a vontade de devorar uns ovos mexidos com bacon.
Não fiz nada disso.
Deixei-me ficar ali, apenas feliz.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Primeiro foi assim

Da Pipoca já se sabe, já se leu, já se conhece.
Porque hoje a Pipoca é assim, é de todos.
Mas poucos sabem o que eu sei, porque o que eu sei não está publicado num livro, nem vem escrito num blogue.
E eu sei, sobretudo, da Ana.
A Ana chegou-me tipo brisa fresca numa noite daquelas quentes. E tal como essas brisas, soube-me bem, mas ela foi-se. Voltaria depois, mais lá para a frente.
Quando voltou era ainda uma Ana fugaz, ligeira. Uma vez mais, chegou tão rápido quanto partiu. Mas desta vez deixou qualquer coisa para trás. Não foi um sapatinho – o que até seria o mais normal – mas foi talvez um perfume de ar, um perfume teimoso que ficou ali a pairar e a anunciar-me que não me deveria esquecer dele.
A cada vez que voltava – e agora já eram muitas – a Ana trazia mais daquela essência doce, doce mas de uma doçura astuta, daquelas que nos prendem e nos fazem querer não sair de perto.
Só que por essa altura a Ana já não era um vaivém desgovernado. Parecia ter parado e parecia, sobretudo, que queria ficar.
Um dia acordei e a brisa que me refrescara naquela já distante noite quente de Verão dera lugar a uma mulher que agora, devagarinho, sem pressas, já não me refrescava como dantes.
Agora, aquecia-me o coração.
Foi essa Ana que eu conheci.
É essa Ana que vive fora da Pipoca.
Foi por essa Ana que me apaixonei.
É essa a Ana que eu amo todos os dias.

Eles que são deuses que se entendam

Se alguém se chegasse perto de mim e me queimasse a testa, deixando-me uma marca definitiva, me expulsasse da minha terra, me lançasse uma maldição – “caminharás errante, perdido pelo mundo” – e demonstrasse ser um assassino cruel e impiedoso eu seria o primeiro a chamar-lhe “filho da puta”. Foi isto que Deus fez a Caim – castigou-o e marcou-o. E foi “filho da puta” que Saramago Lhe chamou em “Caim”, o novo livro do Nobel português, que está a deixar a igreja de cabelos em pé (como se fosse uma grande novidade Saramago ser cáustico em relação à Igreja).

Eu não Lhe podia chamar uma coisa dessas. Mas Saramago pode. E pode, porque é Saramago, e, na Terra, Saramago pode tudo o que os outros não podem, tal como no céu Deus manda e desmanda na vida de todos sem dar cavaco a ninguém.

Hoje, a Igreja já admite que o que vem na Bíblia – a maçã de Adão e Eva, o sacrifício de Isaac às mãos do pai Abrãao, a subida de Moisés ao Monte Sinai – são apenas histórias carregadas de simbolismos. Se assim é, esses valores são naturalmente questionáveis. É o que Saramago faz em “Caim”: questiona, julga, condena. É o que Deus faz na Bíblia: questiona, julga, condena. Eles que são deuses, um na terra o outro no céu, que se entendam. Nós, mortais, não nos metamos nisso.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Mudam-se os tempos

Ontem foi um dia daqueles à antiga, mas com a ordem das coisas invertida.
Ela avisou-me que uma amiga ia jantar lá a casa e perguntou-me se havia ingredientes para preparar uma massa. Disse que sim.

Quando ela chegou, a criança estava de banho tomado, o jantar pronto e quentinho, a mesa posta e o rapaz a acabar de comer.

Lá jantámos.

Depois servi-lhes a sobremesa, levantei a mesa, lavei a loiça e fui deitar a criança.

Quando elas sairam - para ir a um concerto - fiquei a estender roupa e a arrumar o que havia espalhado pela casa. Ainda fui trabalhar uma hora e depois deitei-me.

O mínimo que o meu avô fará quando souber disto será riscar-me da lista de herdeiros, atirando-me de seguida com um "Seu Panisga".

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Não se deixem enganar

Namorávamos há apenas uns dias - uma ou duas semanas, talvez - quando combinámos ir ao ginásio bem cedinho. Deviam ser umas sete e meia da manhã e já estávamos os dois nas máquinas de elíptica e correr nas passsadeiras. Para lá de ter muita pinta, de ser gostosa, de ser culta e inteligente, para lá de escrever que é uma delícia, aquela miúda também era uma entusiasta do desporto e dos ginásios. Estava no céu.

Aquela foi a primeira e a penúltima vez que fomos ao ginásio juntos. A última foi hoje, quase um ano depois. Ou seja, fui enganado. A sacana queria dar aquele ar de gostosona atlética que até malha no ginásio, mas foi só para impressionar. O que lhe vale é que compensou isso com tudo o resto.

Isto para falar das falsidades (as graves) no início das relações.

Há muitos homens e mulheres que adoram mostrar o que não são quando andam na fase da conquista. E eu já vi de tudo - de um lado e do outro. No filme "Groundhog Day", ou "O Feitiço do Tempo", em português, isso é bem explorado. Aí, Bill Murray está preso sempre no mesmo dia. Todos os dias são o dia da marmota. E as coisas acontecem sempre da mesma maneira, todos os dias. É nesse dia que ele conhece Andy MacDowell e interessa-se por ela. Para a conquistar, faz-lhe perguntas sobre o que ela gosta mais na vida. Como no dia seguinte volta a ser o dia anterior, ele vai-se-lhe apresentando como um homem culto e que domina as áreas que ela mais gosta. Faz isto durante vários dias. Ao fim de algum tempo, quando ela o conhece (no dia que é sempre o mesmo) fica encantada. Aquele homem é perfeito. Faz tudo de forma perfeita. Ou seja, ele aprendeu a enganá-la, fazendo-se passar pelo que não é, só para lhe agradar (no fundo, para a levar para a cama, que é quase sempre o objectivo principal dos homens).

Nisto eu até acho que os homens são piores do que as mulheres. Tenho vários amigos que só arrumam a casa quando andam enrolados com uma gaja nova. E só nessas alturas é que são amorosos, românticos, mãos-largas, surpreendentes. Uns tempos depois, voltam a ser o que sempre foram. Desmazelados, brutos, egoístas, forretas. E dá-se o desencanto da parte delas, e levam com os pés, e voltam às noitadas com amigos, às latas de cerveja espalhadas pela casa, às sessões rotineiras de masturbação matinais e nocturnas. No fundo, voltam a ser eles mesmos.

Um dos meus melhores amigos de faculdade, o R., conseguiu mesmo o que eu nunca pensei ser possível: teve uma relação de dez anos com uma mulher que, pura e simplesmente, não o conhecia. Quando falei com ela pelas primeiras vezes assustei-me. Ela falava do namorado, mas a pessoa de que ela falava não existia. Aquele não era o R. Pior: era exactamente o contrário do que era o verdadeiro R. E a rapariga ali andou, durante 10 anos, completamente iludida.

Mas também tenho outro amigo, o N., que um dia me confessou que estava completamente apaixonado por uma gaja, e que achava que era a mulher da vida dele. Puxei por ele e lá me contou que ela o tinha conquistado na cama. Adorava sexo. Por ela, era a toda a hora. Logo de manhã o gajo já tinha um sms da menina a provocá-lo e a convidá-lo para pinarem à hora de almoço. À tarde sugeria-lhe escapadinhas para pensões e hotéis. À noite ia ter a casa dele, ou comiam-se no carro, ou em casa dela. E quando se comiam havia tudo: oral, vaginal, anal, sempre com fartura. E duas e três vezes na mesma noite.
Isto durou dois meses. Depois disso, nem sms de manhã, nem convites para pensões, nem sexo todas as noites. Era muito de vez em quando, e só quando ele insistia muito. Ela já não queria, já não lhe apetecia, fugia, tinha outros compromissos. E mesmo quando se comiam, já era sem chama, a despachar. E, claro, acabou-se o sexo oral, acabou-se o sexo anal e vieram as desculpas do "não gosto assim muito, mas queria experimentar contigo". Afinal não era a mulher da vida dele, afinal tinha andado enganado, afinal aquela deusa era apenas uma enganadora, um Liedson do sexo (piada para homens - o Liedson é conhecido por "O Enganador" por simular muitos penáltis).

Diz-me a experiência que um homem é tão mais feliz quanto conseguir ser igual a si mesmo em todos os círculos por onde se move. É o que, hoje, tento fazer. Já tive relacionamentos em que eu não era bem eu. Já tive outros em que eu era eu, mas não me esforçava por ser melhor do que aquilo que devia ser - e isso não seria ser falso, mas ser apenas melhor pessoa. Nenhum teve futuro.

Hoje acho que não engano ninguém. What you see is what you get. E acho que não me estou a safar mal. Mas prometo tentar ser cada vez melhor.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Obrigado

Mais um dia de saladas e ginásio, depois de ontem à noite ter sido obrigado a jantar (coisa que não faço quando estou de dieta), já que houve festa do jornal.

Lá voltei à passadeira. Como já tinha feito máquinas e 10 minutos de elíptica resolvi correr apenas 30 minutos, velocidade 12. Cheguei aos 20 minutos e estava de rastos. Reduzi um bocadinho a velocidade, mas não desisti. Estava quase, quase, quase a carregar no botão COOL DOWN quando uma menina loira de top, rabinho bem esculpido, e com umas calças de licra descaídas, se foi colocar mesmo à minha frente, numa bicicleta. Pedalou, pedalou, pedalou. E eu corri 45 minutos.

A motivação é tudo no desporto.

Trrrim!!! Trrrim!!! Trrrrim!!!!

Ela faz planos maquiavélicos para me dar cabo da Playstation.
Eu já ando a arquitectar uma forma de lhe destruir a merda do telemóvel que tem um despertador irritante e que toca de 10 em 10 minutos, todas as manhãs, durante uma hora e meia. E a cada tentativa que faço para me levantar levo com o "Vá lá... só até ao próximo toque".

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Os jornalistas são superfofinhos

Os jornalistas são uma raça muito estranha. É gente bizarra, com hábitos esquisitos, conversas meio malucas, codificadas.

Ontem à noite, em hora de fecho, houve discussão à séria no jornal. Mas daquelas de veias no pescoço e bochechas vermelhas dos nervos. E porquê? Porque editora, jornalista e revisor não se entendiam sobre como é que se escrevia... "Super Fofinha" (ou será superfofinha?, ou será super-fofinha?).

Digam lá que esta classe não se preocupa com coisas a sério.

Ainda é quarta-feira...

Vem aí o que espero que venha a ser um fim-de-semana perfeito, como eu tanto gosto.

Abre logo na sexta com um casamento - eu adoro casamentos - de duas pessoas de quem gostei desde o primeiro dia em que as vi, e que acredito que ainda vão viver muitos e bons momentos comigo ao longo da vida.

Sábado vai dar para dormir, vai haver uma sessão de massagem, um FC Porto-Sporting e depois uma ida à Luz para ver o glorioso.

Domingo será um dia de descanso, beijinhos, quiçá um cinema, um almoço de esplanada e uma noitada a ver eleições. Pode ser até que ainda venha para a rua apitar e que desça até ao Marquês a agitar uma bandeira rosa.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Velhos hábitos

O difícil é quase sempre o impulso, o primeiro passo, o dizer "é agora" e ser mesmo. Mas depois, quando acontece, quando o fazemos, quando chegamos lá, somos invadidos por uma sensação única.

Disse para mim mesmo que voltaria ao ginásio no início de Setembro. Mas no início de Setembro havia excesso de trabalho, muita gente de férias, coisas por resolver, enfim, aquelas coisas que metemos na cabeça para nos convencermos a nós próprios que só não voltámos ao ginásio na altura definida porque era impossível. Tretas, claro.

Depois disse para mim mesmo que o regresso seria após umas férias, na segunda semana de Setembro. E mais. Decidi que para lá do ginásio começaria uma das minhas já famosas dietas semestrais, que duram um mês. Passaram dois dias, três, quatro, e nada.

Até que ontem, quando saí para almoçar, e quando começava a dirigir-me para o metro a caminho de um japonês, disse para mim: "Não. É hoje". E foi. Não houve sushi, houve uma salada grega com uma garrafa de água. E ao longo de todo o dia só houve mais um iogurte e uma torrada.

E hoje de manhã, ainda antes das 9 da manhã já estava eu a acelerar na passadeira do Holmes Place. 35 minutos, seis quilómetros, 500 calorias. O primeiro passo está dado. Agora, ninguém me pára.

Há velhos hábitos aos quais é bom regressar.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Há dias assim, parte II

Depois de um dos melhores domingos do ano, uma segunda-feira negra.
Eu sou uma pessoa paciente. A sério que sou. Mas há limites. E esses limites são ainda mais curtos quando o nosso humor já anda por baixo.

Para quem diz que nunca me viu aos berros, hoje já tiveram uma pequena amostra.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Os ordinários

Há homens ordinários, é verdade. São aqueles tipos que mesmo quando dizem uma alarvidade, uma patacoada grosseira, mas daquelas sem grande força, causam repulsa em quem os rodeia. Normalmente, até a simples presença dessas pessoas incomoda.

E depois há os homens que podem dizer ordinarices, podem sair-se com bocas nojentas, mas que conseguem sempre que isso seja visto como fruto de um grande sentido de humor.

Ou é isto, ou então é bem mais simples: quando é um gajo giro a dizer uma ordinarice é uma cena cool, quando é um gajo feio é um grosseiro nojento.

É como cantava o Fausto, nas "Quatro Quadras Soltas" escritas pelo Godinho:

"Quando se embebeda o pobre
dizem olha o borrachão
quando se emborracha o rico
acham graça ao figurão"

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

A cada passo

Os passos que se vão dando a dois têm quase sempre o mesmo dom: apresentam-nos ao que não conhecíamos. Depois, das duas uma; ou nos aproximam mais ainda ou nos afastam um pouco.

Quase sempre, depois dessas caminhadas, regressamos com a certeza de que queremos ir mais longe. Todos os dias.

sábado, 5 de Setembro de 2009

"Are we sluts?"

É frequente, no início dos relacionamentos, haver discussões e conversas sobre o número de parceiros sexuais que cada um já teve. O normal é ambos mentirem: elas cortam-se e contam de menos, eles exageram e metem na lista aquela miúda a quem aos 13 anos deram uma vez um beijo de fugida.

Mas a verdade é que esta é uma discussão interessante. Ainda ontem vi um episódio do "Sexo e a Cidade" em que a Carrie perguntava se seria uma cabra por já ter ido para a cama com uma imensidão de gajos. A questão é: os homens acham que vocês são um bocadinho putinhas se já tiverem ido para a cama com uma data de manfios?

Antes de mais, a estatística. Um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, apresentado como o mais desenvolvido sobre a sexualidade dos portugueses, revelou que 52,4 por cento das mulheres dizem ter tido apenas um parceiro sexual ao longo da vida. Apenas 0,8 por cento dizem ter tido mais de 9 parceiros. Das duas uma: ou as mulheres mentiram no estudo ou eu só tenho conhecido miúdas percententes às minorias.

Agora vamos à resposta: os homens acham-vos putinhas e não vos querem por já terem tido muitos parceiros? Em geral, não, mas...

Há dois factores básicos a ter em conta quando se faz esta análise: a idade da mulher e a sua vivência amorosa. Se estivermos a falar de uma mulher bonita, com 30 anos ou mais, que nunca teve relações superiores a três anos, então, é normal que já se tenha enrolado com um número jeitoso de gajos. É certo e sabido que os homens são uns oferecidos de primeira e se vêem uma miúda gira e solteira tentam tudo para lhe saltar para cima. Como muitas das vezes o que apenas querem é mesmo isso - saltar-lhe para cima - depois de conseguido, vão à sua vidinha e "amigos como dantes" (esta parte é importante - os homens gostam de saltar para cima, pôr-se a milhas, mas ficar "amigos", porque nunca se sabe o dia de amanhã, e é importante deixar ali uma porta aberta). Ou seja, depois desta aventura, a mulher volta a ficar sozinha, volta a estar no mercado, e, invariavelmente, voltará a aparecer-lhe outro gajo qualquer a querer saltar-lhe para cima. Se ela ceder, lá está - mais um para a lista.

Mas isto é reprovável? Não. Tal como nós, acredito que as mulheres também gostem de sedução e também tenham desejo sexual e vontade de pinar. Como são crescidinhas, não têm namorado e até têm ali uma oportunidade boa, aproveitam. É normal. O que não quer dizer que os vossos namorados futuros fiquem todos contentes com estas histórias.

A situação muda um bocadinho de figura se estivermos a falar de uma miúda de 20 anos, que já teve 20 parceiros sexuais. Aí, minhas caras, vão ter problemas. E vão ter problemas porque dificilmente irão encontrar um homem que ache isso "perfeitamente normal" e que o aceite sem qualquer tipo de reserva. Só tenho um amigo - apenas um - que não quer mesmo saber de quantos parceiros é que a sua namorada já teve e, segundo diz, é-lhe "indiferente" que tenham sido 5, 10 ou 100. E como o conheço muito bem até acho que ele está a dizer a verdade. Mas lá está, ele é a excepção, não a regra.

Por norma, nós queremos saber. E sofremos, e não gostamos de vos imaginar com outros gajos.
Há um factor que pode minimizar isso: se os vossos ex-namorados, ex-casos, ex-one-night-stands forem ausentes. Eles até podem existir, até podem ser 20, mas se não se estiverem constantemente a atravessar no nosso caminho tornam-se apenas fantasmas do passado. Agora se temos de levar com eles em jantares de amigos, em aniversários, em cinemas, ou com mensagenzinhas, conversinhas no Messenger, mails, aí, minhas caras, estão a brincar com o fogo. Uma coisa é encontrar um ex-vosso uma vez, outra coisa é o gajo estar constantemente a entrar-nos na vida.

Depois há outro factor que nos pode tranquilizar. O facto de uma mulher já ter tido um número razoável de parceiros faz com que a curiosidade diminua. Já experimentaram vários, já sabem como é, já conhecem a instabilidade, a dificuldade de "andar no mercado" e sabemos que o que temos para vos dar é muito mais do que isso - é sexo, na mesma, mas também tudo o resto, que não encontraram nos outros gajos. Namorar com uma miúda que só tenha tido um parceiro antes de nós deixa-nos a pensar: "Será que ela não tem curiosidade em experimentar outras coisas, de estar com outros homens?". Podemos até concluir que não. Mas que pensamos nisso, ai isso pensamos.

Só uma nota final: as mulheres escusam de fazer comentários do estilo: "Ah, mas vocês são uns machistas e dizem que as mulheres são umas putas se tiverem ido para a cama com 20 gajos, mas se forem vocês a ir com 20 gajas são uns heróis". Essa é outra discussão.
 

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Massage...

São só os homens que quando vão fazer uma massagem têm uma remota esperança de que as senhoras que nos passam óleo pelo corpo nos façam sexo oral?

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Vamos aderir ao MDBP

Da mesma forma que defendo que o orgasmo é sobrevalorizado num acto sexual, acho que o beijo apaixonado é subvalorizado nos relacionamentos amorosos.
Sou fã de beijos apaixonados. Um beijo apaixonado vale mais do que cinco fodas para cumprir calendário. Um beijo apaixonado, envolvido num abraço, nunca é mentiroso, nunca é fingido, nunca é assim-assim.

Nunca uma relação devia deixar de ter beijos apaixonados. Mas é isso que invariavelmente acontece a quase toda a gente. É por isso que devia haver um movimento em defesa do beijo apaixonado, o MDBP.

Hoje em dia quem mais ordena é o beijo toca-e-foge, essa coisinha sem graça, sem fogo, que pode ser dada por dois amantes, mas também por um pai e filho ou dois amigos. Mas se olharmos em volta, para os casais que nos rodeiam, para os nossos pais, para as nossas próprias relações, é ele que vemos, é ele que manda, é ele que está sempre lá, a rir, malvado, a reinar, a ditar a lei.

O beijo toca-e-foge tem uma função – serve para o “Olá, querida, tudo bem?”, quando se chega a casa. Mas é isso. É só isso. Não pode é servir para o “Até amanhã, amor”, para o “Parabééééns” ou para o “Amo-te todos os dias”. Esse é o papel do beijo apaixonado. Ao contrário do toca-e-foge, o beijo apaixonado não deve ter regras, nem quotas ou limites. Deve aparecer sem convite, sem anúncio, e deve mostrar-se todos os dias. A vida sem beijos apaixonados tem menos graça, menos sentido. É menos vida.

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

A terra do nunca

Gosto de loucos e de loucuras. De gente que vive para a sua arte, que usa essa arte da forma que bem entende, sem olhar a legalidades e moralidades.
Gosto de gente que desafia e divide as pessoas. É gente amada, odiada, mas sobretudo falada e sempre recordada.

Ontem vi o "Man on the Wire", o documentário que venceu o óscar de 2009 e que conta a história de Philippe Petit, o francês que achou que seria "belo" passar um cabo de aço de uma Torre Gémea até à outra e dançar naquela corda durante uma hora. Foi o que fez, foi o que o imortalizou.

Ali bem perto, também em Lower Manhattan, vive o Charging Bull, um touro em bronze, de 3 toneladas, que em 1987 foi depositado, durante a noite, à porta de Wall Street. O autor, Di Modica, queria enviar um sinal de que a bolsa, com a sua força e optimismo, iria superar o crash desse ano - e entendeu que a melhor forma de o fazer seria através da arte, de uma obra que as autoridades não tiveram coragem de destruir, e que acabou por ser colocada ali bem perto, num local hoje visitado por milhares de turistas.

Todos nós devíamos ter um dia a força para atravessarmos as nossas cordas bambas e esculpirmos os nossos touros. Mas a verdade é que essa força vem tão depressa como se vai.

Num rasgo de genialidade, as pessoas que fazem os anúncios dos cafés Nicola resolveram pôr frases em pacotinhos de açucar. Frases que, sem serem óbvias, falam dos tais arames, dos touros. "Um dia beijo-te a meio de uma frase". Todos nós já quisemos calar alguém com um beijo. Poucos de nós alguma vez o fizemos.

Também nunca "dançámos até cair para o lado".
Também nunca "perguntámos o nome" àquela miúda gira que vai todos os dias no metro.
Também nunca "dançámos com ela no meio da rua".
Também nunca fizemos os tais "300 quilómetros para estar com ela".
Também nunca "largámos tudo e fugimos" com ela.

A vida passa e os nunca tomam conta de nós.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Por que é que os homens perdem o interesse na namorada?*

É recorrente, mas para falar deste assunto tenho de abordar aquilo que considero mais importante em qualquer relação - seja um namoro, um casamento recente, um antigo ou um simples affair: a chama.

Quando ela se vai, dificilmente reacende. E sem ela as relações estão condenadas. Um homem perde o interesse na namorada, sobretudo, quando a chama vira fumo. Quando o frio no estômago desaparece. Quando a excitação de voltar a casa não existe. Quando a vontade de marcar um fim-de-semana a dois é nenhuma. Quando a paixão virou ternura, e não mais do que isso. Quando o sexo é bom porque é sexo e deixou de ser bom porque é sexo com ela. A chama é tudo. Podem achar que o mais importante é o amor. E é. Sem dúvida. É mesmo. O amor é o mais importante. Mas um homem que ama e não vive um amor ardente está susceptível de perder o interesse na pessoa que ama. Está à deriva e poderá, a qualquer momento, ser abalroado por uma qualquer maluca que o deixa com vontade de trepar paredes num quarto de hotel.

Para manter um homem próximo, mais importante do que amá-lo, mais importante do que prendê-lo a um casamento, mais importante do que tratá-lo bem é mantê-lo vibrante, apaixonado. É desejá-lo, seduzi-lo, encantá-lo a cada dia. A cada momento. Isso não é fácil. Não é mesmo. É um trabalho diário, que custa, para o qual nem sempre temos paciência, mas que é necessário. Quem disse que uma relação é uma coisa fácil? Não é. Nada mesmo. Mas se amamos, se queremos muito ter aquela pessoa, então, esta é fórmula.

Já sei que muitos estão a pensar: "Mas quem ama, ama de qualquer maneira. E o amor tem de ser uma coisa natural, e não trabalhada". É mentira. Amar dá trabalho. Tem de dar trabalho. No momento em que deixar de dar trabalho, então, ele arrisca-se a perder-se, a esfumar-se, a transformar-se noutras coisas igualmente boas como carinho, ternura, conforto, alegria, mas já não é amor ardente.

Isto não é válido para toda a gente. Nem para todas as fases da nossa vida. Mas é seguramente válido para quase todos os que vivem nos vintes e nos trintas - que, acredito, são a maioria das pessoas que me estão a ler. Até atingirmos o patamar dos 40/45 anos, o amor ardente continua a ser uma prioridade para nós. Acredito que depois disso, já mais cansados, procuremos outros patamares de conforto, de estabilidade. Acredito que nessa altura o amor tranquilo, puro, simples, nos chegue. Antes disso, não chega.

É por isto que a maior parte dos homens que traem as mulheres tem entre os 20 e os 40 anos. É por isso que é nesta idade que somos mais aventureiros, que procuramos mais desafios, que queremos novidades. Porque queremos chama. Queremos vida. Queremos paixão. Queremos intensidade, adrenalina, surpresa. E se não o temos em casa, por muito que amemos a pessoa com quem estamos, podemos querer procurar isso noutros lados.

Mas como é que se mantém essa chama acesa todos os dias?

É muito difícil consegui-lo. Dá trabalho. Mas o resultado, esse, vê-se mais logo, à noite, na cama.

Por vezes, bastam pequenas coisas para que um homem queira muito voltar para os braços da mulher ao fim do dia. Voltar para os braços da mulher, e "com o telemóvel no bolso".

Maria - Manel tens o telemóvel no bolso.
Manel - Ai, Maria, eu dou-te o telemóvel.

Zumba. E é logo ali, na bancada da cozinha. Isto é possível.

Vamos então a essas coisas pequenas, que até nem dão muito trabalho, e que podem fazer milagres:

Mensagens picantes: Um homem fica logo, bom... como direi..., enfim, vamos lá, arma a tenda se receber uma mensagem do estilo: "Hoje à noite quero que me comas contra a parede da sala". Lá está, mistura atrevimento, dirty-talk apropriado (também podem substituir o "comas" por "fodas", resulta igualmente), surpresa, desejo. Experimentem. Nós adoramos.

Sugestões malucas: Virem-se para o vosso namorado ou marido e digam-lhe, com ar maroto, mas de forma a que se perceba que estão só a seduzir:

Maria - Manel, achas que aquela tua colega gira, a Luísa, alinhava connosco?... assim a três. Gostava que me comesses à frente dela...

Vão ver que os vossos homens até trepam paredes. Existe a possibilidade de eles acharem que vocês estão a falar a sério, por isso, tratem, de seguida, de dizer que estão só a provocá-lo. Mas façam-no depois do sexo, quando já estiverem satisfeitas.

Elogios à performance sexual e ao órgão masculino: Os homens ADORAM que lhe elogiem o órgão masculino. Eh pá, mintam-nos. A sério. Mintam à vontade, que vão ver que nós saltamo-vos logo para cima e nem notamos que estão a mentir. Podem também dizer que adoram a forma como vos comemos (e aqui é a altura certa para usar dirty-talk).

Bocas sobre outros homens:

Maria - Viste aquele gajo que passou. Xiii, até fiquei sem ar.

Uuuuuiiii, o que isso nos irrita. Mas irrita-nos no bom sentido. Deixa-nos na dúvida. Deixa-nos inquietos, mas com desejo de vos saltar para cima. E é isso que se quer.

Iniciativa e arrojo: Esta é uma das coisas mais importantes. Os homens AMAM que as mulheres tomem a iniciativa. E mais: AMAM quando as mulheres tomam a iniciativa e ainda sugerem novidades. Peçam-nos para fazer alguma coisa diferente. Para fazer amor num sítio estranho. Para experimentar uma posição nova. Para introduzir um brinquedo novo. Para ver um filme pornográfico a dois. Sejam criativas. Transcendam-se. Percam a vergonha. Nós adoramos quando a mulher que temos em casa perde a vergonha.

Conclusão: um homem que tem uma mulher assim em casa não vai querer procurar nada noutro lado. Só vai é querer voltar rapidamente a casa e comer a sua mulherzinha marota.

* este post é um dos meus preferidos do meu outro blogue (chiiiiiiu, não se pode dizer o nome). Aliás, é a junção de dois posts num só. É a minha escolha. Agora venham as vossas.

Eu vou ao bau, pronto

Recebi vários mails com pedidos para colocar aqui alguns textos do blogue antigo (chiuuuu, não se pode dizer o nome). Posto isto, vamos lá a saber que textos é que vos ficaram na retina. Não posso republicar tudo, mas posso sempre procurar um ou outro que seja do vosso agrado.

Digam de vossa justiça.

Fico à espera.

O solitário que não gosta de casas vazias

Das duas vezes em que me aconteceu foi dominado por aquela sensação que não se consegue explicar bem, aquela sensação de se percorrer os cantos da casa quando não se procura nada, de andar perdido no sítio que melhor conhecemos, uma sensação masoquista de querer bater com a cabeça contra todas as paredes.

Sou o solitário que não gosta de casas vazias.
Sou o solitário que prefere quase sempre ir almoçar sozinho - com um livro, o ipod - do que galhofar com os colegas de trabalho, entre pedaços de uma dose de cozido para dois ou umas fatias de pizza ranhosa do italiano aqui na esquina. Sou o solitário que telefona de menos aos irmãos, que fala de menos com a mãe, que liga de menos aos amigos - aqueles amigos mesmo à séria. Sou também o solitário que liga de menos o Messenger, que liga de menos a Playstation, que liga de menos a televisão e que se liga de menos à Internet.

Das duas vezes em que me aconteceu dei as tais cabeçadas na parede, chorei, senti-me o solitário mais solitário do mundo. Mas quando elas se foram embora, quando elas vagaram as gavetas da cómoda, quando me deixaram o armário só para mim, quando recuperei todo o espaço junto ao espelho da casa de banho, quando me vi só, dono de todo aquele reino, parei. Para quê as cabeçadas? Era apenas um reset na vida, um reset que eu queria e que, agora, estava ali, à espera do 0001 no conta-quilómetros.

Ontem deixei eu os armários vazios.
Não houve cabeçadas na parede, nem choros.
As prateleiras estão lá para ti.
Porque eu não gosto de casas vazias.
E contigo sou o solitário menos solitário do mundo.

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Olá, sou eu!

O guaxinim é um animal curioso, inteligente e engraçado.

Adora dormir, baba-se a comer frutas e cereais, caça, mas só come as presas se gostar do cheiro.

Quando está frio prefere ficar na toca, no quentinho. Logo que o tempo aquece é vê-lo na rua, a passear.

O guaxinim é calmo, pacífico. Só se-lhe eriça o pêlo se se metem com a sua menina.

Sou eu.

É guaxi, é nim, é gua-xi-nim!

Já sei que agora todos me vão perguntar: "Ouve lá, aquele blog do guaxinim é teu?"
E eu vou responder: "O blogue do guaxi? Nim!".